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CRÔNICA

Eu a amo muito!

A rodovia esfria. As pessoas já retornaram do feriado prolongado. Há um revezamento entre o silêncio e o roncar dos escapamentos dos caminhões que passam

Publicado em 08/05/2023 às 08:42

(Foto: Lucas Dias/GP1)

A rodovia esfria. As pessoas já retornaram do feriado prolongado. Há um
revezamento entre o silêncio e o roncar dos escapamentos dos caminhões que passam defronte a polícia. O sono, mais traiçoeiro, está sempre com armadilhas para lhe quebrar o pescoço.

Os motoristas a passeio, normalmente, com o avançar da madrugada,
deixam de circular, se instalam em dormitórios ao longo da via. A noite é feita para dormir. Os que trafegam ou se mantêm de pé é por força do ofício. São os policiais, caminhoneiros, viajantes por doenças e casos excepcionais.

Uma caminhonete, do nada, pula a lombada próxima à Unidade
Operacional. O sono se afasta imediatamente. Reduz bruscamente a velocidade, o condutor a estaciona e desce.

Veste roupa de dormir, estilo bermuda, camisa sem abotoar, chapéu
jogado sobre a cabeça, bota com zíper aberto. Literalmente, apressado.

Há uma agonia evidente. Vai ao banco de trás e retira da cadeirinha uma menina de dois anos.

- Bom dia, policial!
- Bom dia!
- Preciso de ajuda!
- Está passando mal?

A criança chora, esfrega os olhos. Ele a balança e conforta.

- Não. Desculpa a forma que cheguei aqui. Minha vida toda está em risco.
Resido em Uruaçu.
- Como assim?
- A gente trabalha a vida toda. Corre atrás de uma coisa e outra. Estou
acabando a colheita da lavoura. Trabalhei por 120 dias sem parar.
- Nessa época é puxado!
- A gente vai comprando mais terras e máquinas, plantando mais roças,
acumulando fortunas. Reconheço que, muitas vezes, faço isso somente
por vaidade, por competição com os outros produtores. Este ano foi a
minha melhor produção de soja de todos os tempos.
- É difícil parar, né! Na regra da economia, ou sobe ou desce.
- Mas estou perdendo o que tenho de mais valioso: minha família.
- Às vezes, precisamos aprender a viver com o suficiente para não
perder o indispensável.
- Minha esposa está com um amante em nosso rancho na Água Branca,
preciso ir lá e quero que vocês me acompanhem.
- Fazer o que lá?
- Aquele rancho era um sonho dela. Construímos para aproveitarmos os
finais de semana, compramos barcos. Mas faz muito tempo que não vou
lá. Só trabalhei ultimamente.
- Como sabe que ela está lá com o amante?
- Quando cheguei em casa hoje, nossa babá me contou tudo. Preciso ir
lá.
- Isso acaba em tragédia. Pensa na sua filha. É melhor voltar para casa.
Colocar a cabeça no lugar e, ao amanhecer, resolver as coisas.

O fazendeiro chora copiosamente.

- Não vou matar ninguém. Só quero dizer a ela que a amo muito.

Um outro policial se aproxima:

- Admiro a sua coragem. Eu, quando passei no concurso da polícia,
deixei minha namorada no Espírito Santo, já namorávamos há anos. Ela
não pode me acompanhar. Eu ficava indo e voltando. Ela cuidava da
avó. Estávamos programando o casório. Certa vez, sugerir a ela que
procurasse uma academia para cuidar da saúde e ocupar o tempo
enquanto eu estava fora. Lá, conheceu um educador físico, um
prostituto. Largou-a na velocidade da próxima aluna que conheceu.

- Vocês voltaram?
- Infelizmente, o nosso romance carcomeu.
- Já faz três horas que sinto o meu coração bater descontrolado, não
conseguir dormir. Preciso ir lá.
- Só o tempo, meu amigo, para lhe ajudar amenizar a dor. Conheço a
arritmia que sente agora. Volte para casa, você ainda tem um grande
amor nos seus braços.

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